Sporting aposta 225 milhões para pôr Alvalade a render todos os dias
O Sporting quer que o Estádio José Alvalade deixe de viver apenas dos dias de jogo. É essa a tese de um vídeo publicado este sábado pelo canal de YouTube ProBuilds, dedicado a estádios, que percorre o projecto Alvalade 2.0 e a operação de 225 milhões de euros que o financia. O canal resume a aposta numa pergunta: «Conseguirá o Sporting transformar o estádio num dos seus maiores activos, ou poderá o custo criar problemas próprios?»
O estádio é jovem para tanta mudança. Inaugurado a 6 de Agosto de 2003, num particular com o Manchester United que os leões venceram por 3-1 e que ficou marcado pela exibição de um Cristiano Ronaldo com 18 anos, recebeu uma meia-final do Euro 2004 e, no ano seguinte, a final da Taça UEFA perdida para o CSKA Moscovo. O vídeo lembra também a factura: uma auditoria do clube apontou para uma derrapagem de cerca de 75 % face ao orçamento, num período em que a dívida bancária leonina chegou aos 331 milhões de euros, em 2013. Pelo caminho, o Sporting vendeu o centro comercial contíguo, em 2007, e a partir de 2021 trocou os azulejos coloridos do projecto de Tomás Taveira por uma identidade verde e branca.
A viragem, segundo o ProBuilds, deu-se a 19 de Setembro de 2024, com a apresentação de um plano estratégico a dez anos para duplicar as receitas do clube. A primeira fase das obras arrancou no fim de Abril de 2025 e acabou com o fosso: o relvado foi rebaixado, nasceram quatro novas filas junto à relva e, com a retirada dos dois ecrãs gigantes dos topos, ganharam-se cerca de 2 mil lugares, para uma lotação próxima dos 52 mil. O terreno de jogo passou a ser híbrido. O estádio reabriu aos adeptos em Agosto de 2025, com um 6-0 ao Arouca, numa noite em que os novos elevadores e a numeração dos lugares falharam. O recorde de assistência já foi batido várias vezes, a última com 51.470 espectadores no dérbi com o Benfica, em Abril de 2026.
O arquitecto Salvador Alonso, do gabinete espanhol Fenwick Iribarren e responsável pelo Alvalade 2.0, parte de uma conta citada no vídeo: um jogo de futebol só ocupa o estádio entre 35 e 40 dias por ano, o que deixa mais de 300 dias por aproveitar. Alonso classificou o antigo fosso como uma «barreira desnecessária», que afastava os adeptos do jogo «física e emocionalmente», e defende que as bancadas mais próximas criam um ambiente mais intimidante, a favor da equipa. A ambição é que Alvalade seja paragem obrigatória para quem visita Lisboa e um espaço usado no dia-a-dia, com conferências, eventos de empresas e dias para famílias.
É nas zonas premium que o estádio mais muda. Na bancada poente, o Emerald Lounge já recebe 280 pessoas e está prevista uma segunda sala na nascente; entre a poente e o topo sul está a ser construído o Lion’s Corner, a entrada dos jogadores vai tornar-se um percurso imersivo até ao relvado e um elevador panorâmico levará ao átrio VIP. Também houve polémica: uma fila VIP de apenas 28 lugares, por cima do túnel e dos bancos de suplentes, foi vista pela Torcida Verde como sinal de um estádio mais dividido. Um ano depois, e após quase sete anos de tensão com as claques, o clube chegou a acordo com alguns grupos para os juntar no topo sul, onde prepara a primeira zona de safe standing do país.
Quanto ao dinheiro, o vídeo recua a Outubro de 2025, quando Frederico Varandas, no Portugal Football Summit, estimou o custo total em cerca de 200 milhões de euros, com 50 milhões já gastos e outros 150 milhões até à época 2028/29, e prometeu «um antes e um depois» para o clube. Duas semanas mais tarde, o Sporting fechou uma emissão de obrigações de 225 milhões de euros, montada com a JP Morgan, a 28 anos e a uma taxa fixa de 5,7 %, com a dívida colocada numa nova sociedade, a Sporting Entertainment. A procura chegou a quase dois mil milhões de euros, perto de nove vezes o montante pedido, e duas agências de notação deram grau de investimento aos títulos.
O clube garante que aguenta o encargo. Segundo os números citados pelo ProBuilds, a SAD lucrou 34,7 milhões de euros em 2025/26, o quinto exercício positivo seguido, as receitas de hospitalidade atingiram um recorde de 10,9 milhões e 63 % das receitas já vêm de fontes que não a venda de jogadores. Os riscos também lá estão: boa parte do crescimento recente veio da Liga dos Campeões, que rendeu cerca de 80 milhões na última época e nunca está garantida; o adversário de Varandas nas eleições de Março de 2026 lembra que os reembolsos só começam por volta de 2029; e o clube gastou neste Verão um recorde de 127 milhões em jogadores, ainda que tenha encaixado mais com vendas.
O calendário deixa pouca margem, porque as obras têm de caber nas pausas entre épocas. A segunda fase começou a 25 de Maio de 2026, na bancada nascente, e chega aos bares e casas de banho do topo sul; Varandas prometeu ainda novos ecrãs e um novo sistema de som e luz. A fase final, até 2028/29, tem como peça central o centro comercial, que os sócios votaram recomprar em Outubro de 2024, com 96 % a favor, num negócio fechado em 2025 por cerca de 17 milhões: vai receber o novo museu, um sports bar e megalojas. Se tudo correr como previsto, as obras terminam em 2029, um ano antes do Mundial 2030, que Portugal organiza com Espanha e Marrocos e para o qual Alvalade foi proposto, ao lado da Luz e do Dragão, embora a FIFA ainda não tenha aprovado a lista final. E o clube admite lançar, dentro de dez anos, um concurso para uma remodelação ainda maior.
O vídeo completo, em inglês, é do canal ProBuilds, no YouTube, e pode ser visto abaixo.
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